Para Arbus, 2016

Jato de tinta sobre papel

84 x 60 cm

Para Arbus: O lugar de poder do corpo marginal

Matheus Mendonça, 2016

 

O estranhamento, a repulsa, a violência e a curiosidade estiveram sempre misturadas de forma confusa quando se trata do que foge minimamente do padrão vigente na vida social. O corpo esteve, desde sempre no cerne desse comportamento de estranhamento. Basta um pequeno desvio irrelevante para que o mesmo se torne marginalizado, para que seja colocado em segundo plano, retirado da normalidade. O corpo freak perde, devido a este fenômeno de marginalização, a individualidade e a liberdade.

A série de seis autorretratos do artista paulistano Júnior Ahzura, nos leva a uma reflexão sobre o lugar de poder do corpo marginal, sobre a resistência da individualidade em meio ao culto da normalidade compulsória. Dedicada a Diane Arbus, (fotógrafa novaiorquina dos anos 60, cujas objetivas estiveram sempre apontadas ao universo freak, retratando anões, homossexuais, pessoas com deficiências físicas e todos os tipos de corpos submetidos ao julgamento higienista e exotizador da sociedade ocidental) a série está carregada de empoderamento.

Ao retratar-se nua, a figura freak quebra as correntes e restrições que são tradicionalmente impostas ao corpo na vida social e na tradição artística. O nu, na história da arte, sempre buscou representar o corpo atlético e heróico da antiguidade clássica. Em Para Arbus, o corpo marginal se representa enquanto corpo heróico, porém, um diferente tipo de heroísmo: a resistência. As deformidades na imagem conferem a este corpo uma aparência que beira o mitológico, o fantástico. A figura freak confere a si mesma um poder que reside na sua própria configuração corporal. O poder de ser muitos, de ser vários, de quebrar as correntes pesadas e normativas. Sendo o agente ativo, o dono de sua própria representação, o corpo freak confere um poder à sua imagem que nenhum outro indivíduo forasteiro à vivência das marginalidades poderia conferir. Como se os códigos vigentes na arte não funcionassem. Como se a rejeição, a violência e o estranhamento fossem os códigos necessários para essa representação.