TEXTOS

Assimetrias_ Júnior Ahzura
Sonoridade: Vinícius Fernandes | @menislofi 
Transcrição do áudio podcast SUMO de Flávia Paiva, 15º edição:


 

 

 

 

 

Vinheta do programa SUMO:

_ SUMO, é o programa que nasce da vontade de compartilhar, das narrativas, memórias, olhares, de artistas educadores que vem atuando em exposições de arte, da experiência de troca com o público e detalhes do que acontecem nesse encontro. Meu nome é Flávia Paiva, e começamos o programa SUMO. [música de fundo de Vanice Ribeiro]

 

[Começa um jogo proposto por Júnior Ahzura. Esse trecho tem intervenção sonora realizada por Vinícius Fernandes, que brinca com ruídos e sons entre as vozes de Júnior e Flávia. Instrução do jogo: falar uma palavra que se associa a última dita pelo outro, não podendo ser palavras que começam com C nem com S. O jogo termina quando houver desatenção.]

Júnior começa:

Educação_Palavra_Poesia_Óleo_olho_óleo_olho_óleo_olho_Visão_Lente_Fotografia_Imagem_Experiência_DooooRRR_Outros_Gente_Humanidade_Paixão_Amor_Ódio_Dor_Vida_Morte_Eterno_Infinito_Respiração_Inspirar_Flor_Planta_

Alface_Alimento_Comida..._Péeeee.. É com “C”!_ Ahh é!_ Que ótima, muito bom, muito bom.

 

Segue Júnior Ahzura:

_ Flávia, primeiro, antes de mais nada, assim, é..., começamos jogando e, primeiro eu quero agradecer o convite, eu tenho acompanhado o Sumo, já desde a primeira postagem e estou muito feliz de estar aqui trocando essa ideia com você e com os ouvintes e vou me apresentar rapidamente. Meu nome é Júnior Ahzura, sou artista visual e educador e também sou um sinalizante (é um jeito que gosto de me apresentar para falar que eu sou fluente em libras e também sou interprete de libras e que eu uso essa segunda língua na minha vida pessoal e na minha vida de trabalho também né, expandir essa comunicação, partindo dos sinais, enfim, de uma outra outra língua que para mim é muito importante). 

Bom, eu gostaria de compartilhar, com vocês uma leitura pessoal que eu tenho feito a partir da minha vivência e experiência com educação e acessibilidade nos espaços de educação não-formal, como: museus, exposições, mostras, enfim... Eu gosto muito de pensar na perspectiva do jogo, da brincadeira, como instrumentos que são aliados à mediação, e além da possibilidade de aprendizado durante o ato de brincar, eu acredito que o jogo, ele pode se tornar uma ferramenta muito prática no despertar e refletir das inúmeras questões que a gente atravessa, independente dos contextos que nos encontramos. Com isso, com esse convite e essa abertura, eu gostaria de convidar todo mundo que está nos ouvindo a pensar em um gênero de jogo chamado Jogo Assimétrico.

Existem vários gêneros de jogos, em suas perspectivas jogabilidades, na mediação é muito comum o uso de jogos cognitivos e também os cooperativos, ou seja, são esses jogos que não pressupõe vencedores e perdedores, mas sim um ponto em comum de troca de conhecimento e descobertas no encontro com a arte, educação, e diversas questões que possibilitam a construção de um diálogo que ele é reflexivo, no momento de uma visita mediada, ou até mesmo em uma oficina. 

Pensando nisso, eu acho interessante essa metáfora que eu trago pra minha prática do jogo assimétrico. Como o próprio nome, é um gênero de jogabilidade que é desenvolvido em uma assimetria, ou seja, os jogadores, eles não partem de um mesmo lugar, muito menos iniciam com equidade de materiais, benefícios e privilégios. 

 

As regras que pretendem demarcar os limites e organização neste caso, gera a manutenção de um desequilíbrio, o que eu quero dizer com isso, com essa metáfora, que para a gente trazer para uma visualidade tem alguns exemplos de jogos ou brincadeiras assimétricas, o pega-pega, por exemplo, e ai, se essa brincadeira na sua cidade, na sua vivência tiver outro nome, me diga depois, mas eu que sou de São Paulo e conheço como pega-pega, é uma brincadeira que parte de uma assimetria, onde uma pessoa persegue as demais que estão participando, visualmente nós temos uma assimetria, por exemplo, de cara percebemos que um dos lados pesa mais, seja pela responsabilidade ou pela quantidade. 

 

Há um jogo on-line, que está super em alta nos dias de hoje, onde nós temos um cenário de quatro personagens, que tem como objetivo central sobreviverem a um assassino e ai, que por sua vez, esse assassino, ele tem o objetivo de capturar os demais, nesse exemplo, a assimetria ela não conta apenas o fato de ser um contra quatro, mas principalmente, no fato de que um único jogador, surge nesse cenário com muitos privilégios e benefícios. Pode parecer que esse exemplo não faz muito sentido, com nossos sujeitos e sujeitas mediadores, mas a grande chave dessa metáfora é que para muitas e muitos de nós estamos dentro de um sistema completamente assimétrico.

E ai eu quero jogar uma pergunta: Onde você se encontra nesse jogo? Quando recebemos um grupo, pelo menos em grande parte das instituições por onde eu passei, um ou dois educadores, acolhem um grupo de até vinte pessoas, eu acho que mais uma vez, estou desenhando uma situação assimétrica. Um ponto importante é pensarmos que além da presença querendo ou não hierárquica, que nós educadores temos, temos a presença de sujeitos que são preenchidos de suas memórias, corporeidades, subjetividades, identidades e as suas leituras de mundo. 

Agora eu gostaria de lançar uma outra questão: O que acontece no encontro de uma pessoa, que essa pessoa educadora, com este grupo? 

Estamos dentro de um sistema de poder, que mantém a assimetria dos corpos ele privilegia uma hegemonia , que é projetada aos demais sujeitos. Há uma manutenção dos lugares de pertencimento. Eu acho interessante pensar que a artista multidisciplinar Grada Kilomba, ela expõe o conceito de descolonização do pensamento, é um caminho que busca a equidade na adaptação de oportunidades que já existem, deixando mais justa para todes. 

Como educadores nós estamos em uma encruzilhada entre instituição com as suas expectativas nas áreas de educação o próprio público, o qual varia bastante pra cada contexto, e as expectativas e os espaços possíveis de trabalho, dos próprios sujeitos e sujeitas. Entender a demanda institucional é um ponto fundamental, entender o nosso público. 

Quem já frequenta esse espaço? Quem não frequenta esse espaço? Quem a gente quer que frequente esse espaço? E também entender as expectativas individuais de cada educador e educadora, pessoas com pesquisas, experiências, únicas, com corporeidades únicas, leituras de mundo e subjetividades que também são únicas. 

Então lanço mais uma pergunta: Como se dá nossa presença nos espaços que trabalhamos? Será que é possível a gente equiparar essa assimetria?

A grande sacada na prática educativa pra mim é analisar o que acontece, o que atravessa, e o que nos move, entender as ferramentas usadas por quem, quem estão usando, e pelo quê a gente usa, e pelo quê, as situações nos limitam, pra gente começar a expandir, extrapolar essa regra de uma manutenção opressora, e eu não estou dizendo que essa regra é necessariamente institucional, ela é institucionalizada, mas no campo amplo, no campo estrutural, e esse é nosso grande desafio, eu venho notando com o tempo, que trabalhar enquanto educador, estar educador, estar mediador, não era só uma coisa que eu percebia como uma função na minha prática de trabalho, mas é um elemento importante da minha identidade e conforme eu ia buscando expandir e quebrar esses limites que foram impostos no decorrer da minha vida, eu fui percebendo a minha própria conversa. 

Foi entendendo desse processo, que para eu expandir e gerar um conforto para que outras pessoas expandissem também esses limites, quebrassem esses limites, o diálogo era fundamental. 

Então hoje eu me pergunto: Será que está dando certo? Será que estou alcançando objetivo?  Qual é o meu objetivo dentro desse lugar que eu chamo de mediação, e que por minha vez, na verdade, eu chamo de um jogo, de um jogo assimétrico. 

Uma das coisas mais legais de pensar jogo, jogabilidade na mediação, é pensar que pode ser divertido, a gente pode rir, a gente vai pensando, trazendo, montando novas estratégias para alcançar um objetivo. E se o objetivo não é explicitado? E se esse objetivo, ele já foi alcançado no momento que nós nos dedicamos a sair das nossas casas e entrar em contato com o mundo. E que mundo é esse? É um tabuleiro que nos espera jogar os dados? é um vídeo game que nos busca estar conectados a ele, ou é uma conversa, um jogo de palavras? 

Eu acho que na minha experiência eu penso muito desse lugar que vem de uma zona de conforto, mas que foi ressignificada com o tempo. Até o momento que hoje eu percebo o quanto se colocar na disposição, estar disponível, ao brincar, ao jogar, significa estar em contato diretamente com o outro, ou com uma outra coisa, e ai eu coloco essa outra coisa como o próprio objeto de arte ou um objeto histórico, seja lá o que a gente for mediar, e perceber que estar disponível pro jogo é estar fazendo a mediação. 

Eu acho que era um pouquinho disso que eu gostaria de compartilhar com vocês e convida-las a continuar jogando e brincando dentro desse universo, esse universo que é preenchido por questões, perguntas, que trás algumas respostas, mais, o mais divertido de tudo isso, é que muitas das respostas acabam existindo por uma simples experiência pode ser transformadora.

Júnior Ahzura | Bicho #1, 2020 

Júnior Ahzura | Indecisão, 2020 

Análisis del canal de Youtube: https://www.youtube.com/user/juniorahzura/videos
#FRACASSOSDEUMYOUTUBER

Guillermina Bustos, 2019

 

No existe momento de nuestra vida en que no recurramos a la teatralización, aquella utilización eficiente de la retórica de los signos que administran nuestro cuerpo, en tanto que materia, y como esté se relaciona con otros objetos materiales (otras cosas, otras personas, etc). 

 

Es esta retórica que hemos aprendido a utilizar para vivir en sociedad, las conductas que reiteramos para significar lo que nuestros pares entienden como apropiado, útil y verdadero; nuestra performatividad. Esta sociedad no es cualquiera, es en la que hemos nacido: nacemos en un idioma, en una determinado régimen de creencias e ideologías. Hemos sido educados para que nuestro comportamiento se encuentre alineado a lo esperable y aceptable, la mayoría de nuestras acciones se corresponden a un deseo de pertenencia y aceptación.

 

A partir de los procesos de globalización, las redes y el despliegue de la tecnología de la imágen existe ya un repertorio común, que ha construído y multiplicado la posibilidad normada de la enunciación individual, sin distinguir calidad, desde plataformas masivas fácil acceso (youtube, facebook, twitter, etc.).

 

Me enuncio así desde los parámetros previstos con la esperanza de ser escuchado, visto, seguido y reconocido; no me expongo para ser rechazado. Siempre le hablamos a alguien, a quien ya le hemos calculado su respuesta. Así es que creemos que recurrimos a cierta forma del  selfdesing, donde aparentemente decidimos, siempre actuando dentro los límites estructurados que habilitan las plataformas, nuestra selfiction. 

 

Pero qué ocurre cuando utilizamos estas plataformas desde el arte contemporáneo? Somos capaces de hacer evidente la retórica de la impostación que se encuentran en todos nuestros actos, y proponer la exploración de otras formas retóricas, que atravieses la educación de nuestro cuerpo, nuestra percepción y nuestro estar en el mundo. Somos capaces de exhibirnos sin esperar el reconocimiento, porque la alteración de nuestra performatividad nos vuelve ineficientes, pero potenciales auditores de los órdenes establecidos. 

 

Así puede ser leído el canal de Youtube del artista Junior Ahzura, ya sea desde su video blogger, el vogue, su streap-tease em blur o sus experimentaciones visuales. Su canal funciona como una revisión y puesta a prueba de los límites del formato, señalando sus clichés y sus posibilidades, mostrándonos de qué manera puede ser usado como una herramienta para la exploración de la propia construcción subjetiva.

Textos relacionados y referenciales

 

> Bustos, Guillermina. el orador indisciplinado. performatividad en la obra de Jorge Bonino. 2014. Disponivel em: http://www.guillerminabustos.net/sitio/2014/11/23/el-orador-indisciplinado-performatividad-en-la-obra-de-jorge-bonino/

> Butler, Judith. Cuerpos que importan.1993

> Sepúlveda T., Jorge. SELF FICTION. 2009. Disponivel em: http://www.curatoriaforense.net/niued/?p=302

> Taylor, Diana; Fuentes, Marcela. Estudios Avanzados de Performance.2011. . 

Impulso
Júnior Ahzura, 2018

Trabalhar com fotografia foi uma consequência em minha vida. Nascido em um lar cercado por câmeras, a mídia se tornou rotina em todo meu desenvolvimento social e futuramente profissional. Filho de figuras públicas marcadas pela consciência coletiva brasileira, buscava nos bastidores situações propícias para o silêncio. Silêncio esquivado por flashes, entrevistas e camarins. Com tudo, passado alguns anos, percebi que a referência mais forte em minha produção está conectada com as experiências vividas através da conturbada mídia.

No ano de me matricular em um curso de graduação a vontade de me comunicar veio à tona. Comunicação, propaganda e criação foi o curso escolhido e concluído. Anos sendo treinado para influenciar pessoas, criar desejos e instigar consumidores, me expandiram a percepção sobre o poder das imagens.  

Poder este que amplia conhecimento, sugere reflexões e que coloca a realidade em dúvida. As imagens nos cercam e brincar com elas é o que me fascina. Ora uma perspectiva de uma auto-referência, ora a distorção imagética criada e difundida, me apego a diversidade de elementos para transmutar o sentido de comunicar.

Fotografia além de figurativa me permite destruir o legível. Performance também é imagem, também é experiência. Vídeo  se une ao inconsciente num presente absorto à leitura. Colagem, nova empreitada visual, me faz querer manipular mais ainda. Hoje percebo a forte presença das linguagens citadas, mas que além disto, me abrem diálogos a novas formas de me comunicar.

Para Arbus: O lugar de poder do corpo marginal

Matheus Mendonça, 2016

 

O estranhamento, a repulsa, a violência e a curiosidade estiveram sempre misturadas de forma confusa quando se trata do que foge minimamente do padrão vigente na vida social. O corpo esteve, desde sempre no cerne desse comportamento de estranhamento. Basta um pequeno desvio irrelevante para que o mesmo se torne marginalizado, para que seja colocado em segundo plano, retirado da normalidade. O corpo freak perde, devido a este fenômeno de marginalização, a individualidade e a liberdade.

A série de seis autorretratos do artista paulistano Júnior Ahzura, nos leva a uma reflexão sobre o lugar de poder do corpo marginal, sobre a resistência da individualidade em meio ao culto da normalidade compulsória. Dedicada a Diane Arbus, (fotógrafa novaiorquina dos anos 60, cujas objetivas estiveram sempre apontadas ao universo freak, retratando anões, homossexuais, pessoas com deficiências físicas e todos os tipos de corpos submetidos ao julgamento higienista e exotizador da sociedade ocidental) a série está carregada de empoderamento.

Ao retratar-se nua, a figura freak quebra as correntes e restrições que são tradicionalmente impostas ao corpo na vida social e na tradição artística. O nu, na história da arte, sempre buscou representar o corpo atlético e heróico da antiguidade clássica. Em Para Arbus, o corpo marginal se representa enquanto corpo heróico, porém, um diferente tipo de heroísmo: a resistência. As deformidades na imagem conferem a este corpo uma aparência que beira o mitológico, o fantástico. A figura freak confere a si mesma um poder que reside na sua própria configuração corporal. O poder de ser muitos, de ser vários, de quebrar as correntes pesadas e normativas. Sendo o agente ativo, o dono de sua própria representação, o corpo freak confere um poder à sua imagem que nenhum outro indivíduo forasteiro à vivência das marginalidades poderia conferir. Como se os códigos vigentes na arte não funcionassem. Como se a rejeição, a violência e o estranhamento fossem os códigos necessários para essa representação.