TEXTOS

Impulso
Júnior Ahzura, 2018

Trabalhar com fotografia foi uma consequência em minha vida. Nascido em um lar cercado por câmeras, a mídia se tornou rotina em todo meu desenvolvimento social e futuramente profissional. Filho de figuras públicas marcadas pela consciência coletiva brasileira, buscava nos bastidores situações propícias para o silêncio. Silêncio esquivado por flashes, entrevistas e camarins. Com tudo, passado alguns anos, percebi que a referência mais forte em minha produção está conectada com as experiências vividas através da conturbada mídia.

No ano de me matricular em um curso de graduação a vontade de me comunicar veio à tona. Comunicação, propaganda e criação foi o curso escolhido e concluído. Anos sendo treinado para influenciar pessoas, criar desejos e instigar consumidores, me expandiram a percepção sobre o poder das imagens.  

Poder este que amplia conhecimento, sugere reflexões e que coloca a realidade em dúvida. As imagens nos cercam e brincar com elas é o que me fascina. Ora uma perspectiva de uma auto-referência, ora a distorção imagética criada e difundida, me apego a diversidade de elementos para transmutar o sentido de comunicar.

Fotografia além de figurativa me permite destruir o legível. Performance também é imagem, também é experiência. Vídeo  se une ao inconsciente num presente absorto à leitura. Colagem, nova empreitada visual, me faz querer manipular mais ainda. Hoje percebo a forte presença das linguagens citadas, mas que além disto, me abrem diálogos a novas formas de me comunicar.

Para Arbus: O lugar de poder do corpo marginal

Matheus Mendonça, 2016

 

O estranhamento, a repulsa, a violência e a curiosidade estiveram sempre misturadas de forma confusa quando se trata do que foge minimamente do padrão vigente na vida social. O corpo esteve, desde sempre no cerne desse comportamento de estranhamento. Basta um pequeno desvio irrelevante para que o mesmo se torne marginalizado, para que seja colocado em segundo plano, retirado da normalidade. O corpo freak perde, devido a este fenômeno de marginalização, a individualidade e a liberdade.

A série de seis autorretratos do artista paulistano Júnior Ahzura, nos leva a uma reflexão sobre o lugar de poder do corpo marginal, sobre a resistência da individualidade em meio ao culto da normalidade compulsória. Dedicada a Diane Arbus, (fotógrafa novaiorquina dos anos 60, cujas objetivas estiveram sempre apontadas ao universo freak, retratando anões, homossexuais, pessoas com deficiências físicas e todos os tipos de corpos submetidos ao julgamento higienista e exotizador da sociedade ocidental) a série está carregada de empoderamento.

Ao retratar-se nua, a figura freak quebra as correntes e restrições que são tradicionalmente impostas ao corpo na vida social e na tradição artística. O nu, na história da arte, sempre buscou representar o corpo atlético e heróico da antiguidade clássica. Em Para Arbus, o corpo marginal se representa enquanto corpo heróico, porém, um diferente tipo de heroísmo: a resistência. As deformidades na imagem conferem a este corpo uma aparência que beira o mitológico, o fantástico. A figura freak confere a si mesma um poder que reside na sua própria configuração corporal. O poder de ser muitos, de ser vários, de quebrar as correntes pesadas e normativas. Sendo o agente ativo, o dono de sua própria representação, o corpo freak confere um poder à sua imagem que nenhum outro indivíduo forasteiro à vivência das marginalidades poderia conferir. Como se os códigos vigentes na arte não funcionassem. Como se a rejeição, a violência e o estranhamento fossem os códigos necessários para essa representação.